O Autor

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    Chamo-me Daniel Conde, e tenho as minhas raízes no concelho de Vinhais, Nordeste Trasmontano. Desde pequeno, quando visitei a estação de Bragança pela primeira vez em 1993 que a Linha do Tua faz parte do meu imaginário. Porque estaria assim ao abandono um local que era suposto estar cheio de gente e de reboliço? Até o relógio da estação estava parado, marcando horas eternas a partir da má hora em que alguém decidira deitar em coma todo aquele espaço.

    Tornei-me viajante habitual da Linha do Tua a partir de Outubro de 1994, quando me fiz estudante interno do Colégio Salesiano de Poiares da Régua. Para poder passar os fins de semana prolongados e as férias na casa dos meus avós em Vilar de Ossos, subia a bordo de um comboio na Régua, fazia o transbordo no Tua, e saía em Mirandela. No regresso, fazia o caminho contrário. Isto foi feito vezes sem conta, e aquelas duas horas de viagem entre o Tua e Mirandela pareciam mágicas. A paisagem envolvente e a mística inerente aos caminhos-de-ferro tornaram-se uma parte da minha vivência. Pequenos rituais começaram a ganhar forma, por exemplo no bilhete, que na Régua era tirado em computador atrás de uma vidraça e em Mirandela saía de um grande armário repleto de bilhetes atrás de um balcão gasto pelo tempo. Na grande estação da Terra Quente, as chegadas e partidas faziam-se depois de uma rápida visita à proprietária do bar, que ostentava sobre a porta a forte palavra restaurante. O próprio caminho ganhou marcos aqui e ali; além das obras de arte, era um pequeno santuário à beira do rio perdido algures, aquele moinho na Brunheda que faz lembrar um barco, a ponte sobre o Tua em Vilarinho, a barragem de Mirandela. E claro, as viagens do Tua para Mirandela eram mais esperadas do que as do caminho contrário, pois nessas eu estava a sair de casa de volta a longos dias de ausência e de estudo.

    Toda aquela atmosfera arrebatadora mexeu com os meus 11 anos de idade, e um dia, num dos denominados estudos, minutos em que os internos deveriam estar em salas fora do período de aulas para estudar, comecei a escrever algumas linhas soltas sobre aquele extraordinário caminho-de-ferro. Nascia ali um hábito que marcaria os anos seguintes, na forma de um caderno a que chamei, obviamente, A Linha do Tua. Essas folhas constituíram a partir daí relatos, ora como diário de viagem, ora como estudo e alguns pensamentos sobre os caminhos-de-ferro, com especial enfoque na Linha do Tua e na Linha do Douro. Ainda hoje tenho um desses cadernos em aberto, que já vai no seu número 5. No ano de 1995, nascia o Metro de Mirandela, pouco depois de, numa viagem da minha terra até Mirandela para apanhar o comboio para o Tua, um tio me ter mostrado a estação de Carvalhais. No ano seguinte, decidi tentar observar o resto da linha, que desde 1992 jazia em total abandono. Foi em 1996 que embarquei em duas viagens feitas de propósito nos denominados autocarros de substituição, que mal ou bem seguiam a via e as estações do troço encerrado. A primeira de pouco serviu, já que foi feita de noite, e a partir de algures entre Castelãos e o Vale da Porca ter sucumbido ao sono. Cheguei à estação de Bragança desolado. Na segunda oportunidade consegui ver finalmente mais qualquer coisa daquela situação que não conseguia e ainda hoje não consigo compreender. Vi as estações de Cortiços, Grijó, Macedo de Cavaleiros e Castelãos pela primeira vez, antes do autocarro parar perto do Vale da Porca com uma avaria. A linha corria ali mesmo ao lado, para lá da berma da estrada. A viagem enfim prosseguiu, podendo ainda ver as estações de Sendas, Salsas, Rossas, Remisquedo e Rebordãos. Na cabeça estava já gravada a Ponte de Rebordãos, pelas passagens anteriores no IP4, onde ambos se juntam lado a lado.

    A jornada continuou. Em 1996 fiz a primeira viagem na Linha do Douro até ao Porto, e comprei na estação do Tua um bilhete que ainda conservo, do Tua para Bragança; e só precisava de pedir até Mirandela. Vieram outros anos, e outras viagens, mas a Linha do Tua permaneceria para sempre ligada ao meu quotidiano. Mas, uma vez que os A Linha do Tua eram uma coisa pessoal, decidi em 1998 escrever sobre ela pela primeira vez para um jornal, para onde voltaria a escrever anos depois: seria o Cipreste, de Macedo de Cavaleiros.

    Com a saída dos Salesianos e a vinda para Lisboa, passei 3 anos sem viajar na Linha do Tua, tendo por companhia a partir dos autocarros onde viajei entre Vila Real e Chaves os restos da Linha do Corgo encerrada. Durante esse tempo, em 2001, as Napolitanas e as Alsthom saíam de serviço, e o Metro de Mirandela passava a operar em toda a via ainda explorada, do Tua a Carvalhais. Nesse mesmo ano, um alarme sério de encerramento da via foi dado nos piores horários de que tenho memória desde que comecei a viajar na Linha do Tua, já que os autocarros começaram a tomar conta das circulações dos comboios. Duraram felizmente pouco tempo, já que noutros casos, como as Linhas do Sabor e do Vouga, esse foi o definitivo prenúncio do fim dos comboios.

    Veio 2002, e o regresso à Linha do Tua, ainda que de forma bastante esporádica, sistema que ainda hoje mantenho. Com o passado ano de 2005 lancei a proposta de um livro sobre o centenário da chegada do comboio a Bragança, proposta que continua em aberto. Agora, em 2006, quando se volvem 100 anos sobre a chegada do primeiro comboio a Bragança, a mais séria ameaça de encerramento da Linha do Tua chega na possível construção de uma barragem na foz do Tua, que a submergirá.

    É altura de dizer basta. Durante todo este tempo aprendi a ver a Linha do Tua a ser lenta e gradualmente esquecida, e os trasmontanos espoliados da sua memória ferroviária, das suas vias de comunicação, e de ver uma das maiores obras de engenharia portuguesas de sempre ser levada muito pouco a sério, fazendo vista rasa à sua importância e potencial. Por isso mesmo decidi criar este espaço, que pretende ser um meio de divulgação, que tanto tem faltado, desta via singular que tão poucos portugueses conhecem, mas que tantos estrangeiros visitam. Criar o interesse nesta via-férrea secular, que permitiu o desenvolvimento de uma extensa área de Portugal, seja para o turismo seja para as normais circulações de gentes e mercadorias actuais, parece ser o único meio de fazer um Estado de costas voltadas ouvir e ver que aqui, existe uma linha, que não é só tua, mas de todos nós.