Do Tua a Mirandela: 54Km de sonhos.
No Tua, a linha começa à mesma cota da
Linha do Douro. Inserida na mais antiga região agrícola demarcada do mundo, a
Região Demarcada dos Vinhos do Douro, a paisagem circundante é na verdade
multiforme, com a vinha a marcar forte presença na margem esquerda e a jusante
em ambas as margens do Rio Douro, e uma paisagem silvestre, mesmo agreste e
árida a montante. Uma bela amostra dos primeiros quilómetros da Linha do Tua é
visível a partir da Ponte Ferroviária do Tua, na Linha do Douro, com uma ponte
rodoviária a fazer a travessia do Tua, datada de 1940, e a vista da magnífica
Ponte Ferroviária das Presas, encostada a uma alta e recortada escarpa que cai a
pique sobre o Rio Tua. Os vales dos dois rios são aqui encaixados e profundos,
sendo que o próprio Douro ultrapassa a pouca distância a montante uma garganta
estreitíssima, oferecendo uma rara visão deste gigante ibérico com apenas poucos
metros de largura na passagem. O isolamento ancestral destas paragens é quase
palpável, e as vias-férreas e algum automóvel que passa são as únicas notas de
movimento e presença humana que se podem sentir.
Rio Tua, visto da Ponte Ferroviária sobre a sua foz no Douro.
A partida do Tua é feita sempre após a partida de um comboio da Linha do Douro; por isso, é com a estação mais vazia e silenciosa que o comboio da via estreita começa o seu ritual de partida. Quem já não é novato na viagem escolhe invariavelmente um acento no lado esquerdo da automotora, isto é claro se não tiver vertigens, já que é sempre deste lado que se pode apreciar a melhor paisagem da viagem, com vista directa sobre as escarpas do vale do Baixo Tua, e é claro sobre o próprio rio. Devido à dimensão da linha, todo o pessoal funcionário se conhece, e as relações funcionam como se de vizinhos de uma mesma aldeia se tratassem. De mais a mais, estamos em Trás-os-Montes, onde o ritmo das coisas é peculiarmente diferente. Assim, sempre à tabela, é dado ao maquinista sinal de partida, com um assobio forte e rápido, e a característica bandeira enrolada e levantada. Com um apito agudo e quase discreto da automotora, começa a marcha para Mirandela.
A espera de mais uma partida no Tua; a automotora 9500, ou LRV2000.
A disposição de toda a estação provoca no passageiro que vai seguir na Linha do Tua pela primeira vez a falsa impressão de, ao partir, estar a andar para trás, uma vez que de facto os primeiros metros da linha seguem na direcção da Régua, para só tomar o rumo Norte a partir de uma longa curva na qual é atravessada por viaduto pela estrada de Alijó. À medida que a estação do Tua vai ficando para trás, podemos ver algum material histórico de via estreita, e o casario que vai ficando para trás, geralmente com uma ou outra cena de pacatez doméstica, de uma terra que não tem pressa de viver o seu dia-a-dia. De repente, a via começa a sofrer um grande desnível, e as casas e a Linha do Douro começam a submergir sob altas paredes. Passamos ao lado da desactivada Casa do Douro, e começamos a rumar para Norte, quando a estrada nacional 212 atravessa a linha num viaduto, ficando depois à mesma cota, e depois mais em baixo, uma vez que a linha continua a escalada e a estrada desce até à ponte sobre o Tua. Assim, no quilómetro 1 da Linha do Tua, o passageiro é introduzido no Baixo Tua a ver a Linha do Douro a atravessar o Tua numa ponte metálica a escassos metros da Foz do Tua, a estrada nacional a passar também para a outra margem numa ponte em arco de alvenaria de 1940, e a Ponte e Túnel ferroviários das Presas, num cenário de deslumbramento, desbravado pelos intrépidos construtores de uma das mais belas vias-férreas de Portugal.
A passagem pela Ponte das Presas, perto da Foz do Tua.
A saída do Túnel de Tralhariz, a escassos metros do apeadeiro com o mesmo nome.
A paisagem
que vai envolver a linha nos próximos quilómetros é um suceder de montes de
grande elevação e declive, onde se alternam lugares de terra e vegetação
rasteira, e de grandes rochedos e paredes que se precipitam a pique até ao leito
do rio. Estas formações rochosas, um dos principais atractivos do percurso no
Baixo Tua, abundam na margem direita, oposta à linha, mas são também uma
presença quase constante na margem esquerda, aparecendo abaixo dos paredões que
suportam a linha em rampas que entram pelas águas do rio, e por cima desta em
rochedos dispersos ou em longas paredes picadas pelos trabalhadores da
construção da via. Das janelas da automotora, a margem do lado de Alijó encanta,
com grandes formações rochosas que vão aparecendo com frequência, às vezes em
cortinas compactas de granito, outras vezes em pilhas de rochas de grandes
dimensões em prodigiosos equilíbrios, como se fossem esculturas feitas pelas
mãos da Natureza.
Os Túneis e a Ponte das Fragas Más, num dos mais espectaculares troços da linha.
É neste cenário
extasiante que surge a primeira paragem da linha, o apeadeiro de
Tralhariz.
Servindo a aldeia de Tralhariz do Norte, a pouco mais de 2km, a estação reside
num lugar ermo, com a aldeia de S. Mamede de Riba Tua a pouca distância na
margem oposta. Poucos metros após a estação, entramos no
Túnel de Tralhariz, em
curva, num dos troços mais acidentados e íngremes de toda a linha, voltando no
final deste a aparecer um cenário de novo duro, de grandes rochedos a
precipitar-se no leito do rio, em ambas as margens, com uma parede natural
apenas a centímetros da automotora. Ainda antes da próxima paragem, o apeadeiro
de Castanheiro, surge aquele que é sem dúvida o cenário de maior beleza do Baixo
Tua e dos mais belos de toda a linha: as Fragas Más. Adivinha-se este lugar
remoto e extremamente acidentado ao surgir da margem direita do Tua uma pequena
ribeira que se despenha numa bela queda de água, em sucessivos lances pelas
fragas. Logo após esta visão selvagem somos engolidos pelo
Túnel das Fragas Más
I, também em curva, e surgimos do outro lado para logo enfrentar um
viaduto, que
substituiu uma ponte em ferro original, com um aspecto singular, aparentando-se
mais com um contraforte, e outro túnel (Fragas Más II).
Neste ponto onde
os fraguedos são soberanos, surge inesperadamente detrás de uma rocha a mais
pequena estação da linha: Castanheiro. Este minúsculo apeadeiro seria facilmente
confundido com uma qualquer ermida, se não fosse mesmo as letras a negro no
estilo característico desta ferrovia a identificar o seu propósito. Totalmente
isolada, é por carreiros que serpenteiam os montes que se chega à aldeia de
Castanheiro. É também neste apeadeiro que a linha, tal como o rio, deixa de
seguir um rumo Este – Oeste seguido desde o Túnel de Tralhariz, para voltar a
encarreirar num rumo Sul – Norte.
Após Castanheiro a linha guina rumo a Santa Luzia, numa curva onde uma grande plataforma rochosa com um formato ondular esculpido pelas águas do Tua, e onde este forma pequenas poças, faz a margem esquerda do rio. O vale expande-se e retrai-se, como que jogando com a automotora que vai subindo a linha. Num destes pontos de mudança a linha atravessa o Túnel da Falcoeira, quando vamos deixando o Baixo Tua dos grandes fraguedos, para ter uma paisagem que se vai transformando, abundando o verde, com montes mais suaves e cada vez menos rochosos do lado esquerdo do rio, e uma mistura de rochas e barreiras do lado direito. Neste cenário igualmente deslumbrante surge encostada a um penedo a Ponte de Paradela, sobre uma ribeira que atravessa a aldeia com o mesmo nome, lá em cima nos montes.
Tão rápido como surge detrás de rochas, o apeadeiro de Castanheiro volta a desaparecer no monte.
A Ponte de Paradela, com uma das pontas encostada a um alto penedo sobre a ribeira.
Aproximamo-nos do
Amieiro, terra do concelho de Alijó, que dista desta localidade perto de 10km, e
que é servida pela estação de Santa Luzia. Antes mesmo de se avistar a estação,
vemos a pacata aldeia na sua profunda ladeira, rodeada de altos cabeços de
penedias agrestes. Até ao Inverno de 2003, a travessia do Tua neste ponto era
feita numa ponte metálica, que foi varrida dos pilares pelas violentas cheias
que se fizeram sentir. Resta agora uma peculiar forma de atravessar, que é feita
num teleférico que desliza por meios manuais através de cabos suspensos entre
ambas as margens. Mas é o local onde a estação foi construída que mais chama a
atenção. Por detrás do edifício ladeado por um muro, fica uma impressionante
escarpa que guarda como um gigante este espectacular recanto escondido do vale
do Tua. Aqui é a primeira paragem obrigatória da automotora na viagem.
A estação de Santa Luzia, de frente para a aldeia do Amieiro, e de costas para uma altíssima escarpa.
Seguimos a escalada, e pouco depois estamos nas Caldas de São Lourenço, terra que protagonizou em 1995 um braço de ferro com a CP pela demolição do edifício da estação, que veio a ser reconstruída, porém numa traça incaracterística desta linha secular. Encontra-se aos pés da aldeia com o mesmo nome, no fim de uma rua que serpenteia uma descida longa suportada por muros de pedra.
São Lourenço; a estação centenária foi demolida em 1995, e em seu lugar surgiu esta.
De novo o vale nos
aperta, fazendo-nos distanciar do mundo exterior e recatarmo-nos na nossa
própria mente, deixando que a automotora nos embale, e seguindo sem mesmo olhar
o curso do rio e os montes que lá do alto nos acenam, delimitando o nosso campo
visual. A sensação de ermo, de isolamento, persiste, e numa curva mais ampla do
Tua avista-se um pequeno barracão, que é afinal o apeadeiro de
Tralhão. O seu
edifício tem a particularidade de ter um terraço em vez de telhado, tendo apenas
um coberto de telhas em cima da minúscula plataforma. Este desusado apeadeiro é
esporadicamente requisitado por alguns pescadores, que escolhem este magnífico
local para uma tarde mais solarenga à pesca, já que o Tua corre aqui num vale
mais amplo e de águas mais calmas que nos quilómetros a jusante.
Em mais um ermo, o pequeno apeadeiro de Tralhão monta guarda às águas do Tua.
De repente,
apercebemo-nos que a enorme muralha que aperta o rio no fundo de altas ameias de
granito desaparece, para dar lugar a uma cadeia de montes de menor altitude em
relação ao rio, mas de maior quota, que se vão afastando do vale, permitindo um
maior fôlego à vista. Começam a surgir pequenas propriedades agrícolas, algumas
das quais em múltiplos socalcos, onde a vinha e a oliveira, as árvores mais
emblemáticas da Terra Quente Trasmontana, começam a dominar a paisagem.
Começamos a avistar ao longe uma alta ponte de betão, em curva, sobre o Tua. Na
margem direita, um pequeno estuário, que no Verão se transpõe facilmente a vau
(o que se atesta pelas marcas de veículos entre as duas margens da foz) indica o
fim do curso do Rio Tinhela. Este rio, que nasce nos vales da Serra da Padrela
perto de Vila Pouca de Aguiar, vem passar ao lado de Murça, sendo logo depois
atravessado pelo IP4, e vem desaguar no Tua, algumas centenas de metros a
jusante da ponte. Não muito longe deste local acolhedor estão as Caldas de
Carlão. E surge então a próxima estação, Brunheda, no fim de uma longa recta,
sendo a primeira estação desde o Tua, que está integrada no aglomerado
populacional que serve. Ao lado, um moinho em ruínas, com uma curiosa formação
em forma de proa de barco, continua ao lado do rio, que corre num leito estreito
de águas velozes a escassa distância da ponte da N314. A partir daqui, o vale do
Tua remete-nos para uma paisagem de quintas e outras propriedades de menor
dimensão, com vinhas, olivais e choupais à mistura, a par de baldios repletos de
rebouços.
Estação da Brunheda, fronteira imaginária do Baixo Tua.
Mas a automotora
não se demora. Continuamos a subir, sempre com o Tua ao nosso lado. Ao pé de
nós, conversas de ocasião, e o revisor que vai avançando num equilíbrio seguro
face aos solavancos do comboio. Tudo se conjuga nesta viagem como um elo de cada
dia, numa vivência tão normal como a de um qualquer povoado. Quase nem nos damos
conta da chegada ao apeadeiro de Codeçais, a única paragem da linha até
Mirandela com um reservatório de água para as locomotivas a vapor. O rio aqui
segue escondido da linha, atrás de grandes choupos que lhe servem de alameda. A
estação, isolada, comunica com a aldeia de Codeçais por um caminho de pedra e
terra batida que tem um pequeno desvio que acaba num dos lados da estação, e que
segue até a uma propriedade à beira do Tua. É um dos apeadeiros com maior
procura no caminho da automotora.
Apeadeiro, Codeçais é a única entre o Tua e Mirandela com uma torre de água.
Apito, viagem que
prossegue. Estamos a meio caminho entre o Tua e Mirandela, quando atravessamos
uma ponte em tudo semelhante à já ultrapassada de Paradela; a
Ponte da Cabreira.
De pequena dimensão, permite a passagem aos comboios por cima, e à Ribeira da
Cabreira por baixo, cujas nascentes se situam a já pouca distância de Vila Flor.
Pouco depois, avista-se na outra margem uma grande elevação, após a qual se vêem
as paredes que sustentam a N314 à saída de Abreiro a descer rumo à ponte sobre o
Tua. A linha descreve mais uma curva, e eis que conseguimos ver ao longe a Ponte
Rodoviária sobre o Tua, ao lado da qual dois edifícios brancos se comprimem
entre as barreiras que descem até ao rio. É a estação de Abreiro.
Ao longe, depois do Tua se espreguiçar entre uma garganta e outra, a estação de Abreiro desenha-se no vale.
Antes de a
alcançar, a automotora tem ainda de atravessar a
Ponte do Vieiro, uma ponte
construída após a queda da original numas cheias ocorridas nos princípios do
século XX. Os únicos vestígios desta antiga ponte permanecem do lado da fachada
principal da estação, onde uma linha, actualmente de desvio, acaba abruptamente
suspensa sobre o pequeno vale da Ribeira do Vieiro. Aliás, um outro testemunho
destas cheias demolidoras, repousa alguns metros a montante da estação, nos
alicerces arruinados de uma antiga ponte de pedra sobre o Tua, ambos sustentados
em cima de grandes rochas nas margens do rio. Paramos; Abreiro é uma das mais
importantes paragens da Linha do Tua, sendo aqui que se efectuavam e ainda se
efectuam cruzamentos de comboios, e onde se dá a conhecer o estado da marcha da
composição ao Tua. Outrora com um armazém, actualmente em ruínas, a estação
oferece alguns minutos de pausa a passageiros e ferroviários, deslumbrando com
uma espraiada curva do rio, que se alarga consideravelmente, num amplo vale, com
uma língua de areia a jusante, e que junto à estação estreita dramaticamente,
num repercorrer de um caminho ladeado de grandes penedos e paredes rochosas. O
Tua tem um negro sinistro de abismo, e as suas águas criam perigosos remoinhos
nos calhaus que emergem do seu leito. A ponte, em arco ligeiro, conserva por
cima das linhas um característico negro de fuligem, fruto das várias passagens
de locomotivas a vapor que ainda pôde testemunhar. A paragem em Abreiro é sempre
das mais longas da linha até Mirandela, sendo ainda mais demorada quando se tem
de esperar pelo cruzamento com outro comboio.
Ponte do Vieiro; esta ponte substituiu a original demolida por cheias do Rio Tua no início do século XX.
Abreiro, estação que medeia Tua e Mirandela, onde se cruzam comboios e se dá conhecimento da marcha.
A automotora arranca devagarinho, e quando começa a embalar na reduzida velocidade praticada na linha (45 km/h), passamos ao lado das ruínas da velha ponte de pedra, atravessando calmamente o grande amuralhado que nos leva até meio caminho da Ribeirinha. Esta formação é em definitivo o adeus ao Baixo Tua, parecendo assim como que o caminho para os portões desta espectacular cidadela. A Terra Quente dos terrenos macios, do azeite, dos figos, e ainda de bom vinho acolhe-nos, e até o próprio Tua parece correr de outra forma, mais calmo, largo e convidativo. Desde a Brunheda que as margens do Tua se tornam mais praticáveis, mas este corredor de pedra de Abreiro remete-nos de novo para os primeiros quilómetros da Linha do Tua, mas é só durante alguns minutos, para nos deixar de novo num espectáculo menos duro, mas igualmente belo, que o Nordeste Trasmontano tem para oferecer.
Apesar de estar entre o Tua e Mirandela, o apeadeiro da Ribeirinha é a mais nova estação deste troço.
Antes de chegar à
Ribeirinha, começam a surgir as cristas rochosas de uma montanha, uma das mais
altas do concelho de Mirandela que é essencialmente planáltico, que ladeia a
aldeia de Vilarinho das Azenhas, chegando aos 822 metros de altitude. Uma
antevisão do que a linha passa já nos concelhos de Macedo e Bragança. Quem olhe
para esta elevação, ainda longe e tão altaneira, pode pensar nisto: dali a 76
Km, a Linha está a uma quota 28 metros acima do pico desta montanha. Dá
realmente que pensar sobre a dimensão desta obra ímpar dos caminhos-de-ferro
portugueses. De repente, de entre pequenas colinas ondulares, muros e oliveiras,
surge o casario da Ribeirinha. Este povoado não teve estação aquando da
construção da Linha do Tua até Mirandela, sendo já no período de exploração da
Linha até Bragança que Abílio Beça ali decretou que fosse construída uma
estação. Apeadeiro de pequenas dimensões, tem apenas a particularidade da sua
“menor” idade e da sua plataforma ser a mais elevada do troço até Mirandela a
distingui-la das demais.
Haja ou não paragem
neste apeadeiro, a viagem prossegue. Do lado direito do rio, ergue-se uma
montanha muito semelhante à que se eleva junto a Vilarinho, com vários
afloramentos rochosos, para lá dos olivais que rodeiam a linha. Segue-se uma
série de 3 paragens obrigatórias, a primeira das quais na estação de Vilarinho,
num troço que sofreu recentemente obras de manutenção da via e iluminação das
estações. A estação está a alguma distância do povoado, pelo que não há nenhuma
habitação próxima. A ladear a estação está a N15-4, que liga esta zona ao IP4 no
nó de Mirandela Oeste e também ao Aeródromo da região. A paisagem envolvente é
aprazível, com o Tua a correr pachorrentamente entre choupais, e uma calma
envolvente que abençoam este local de passagem. Pouco depois da estação a
estrada atravessa a linha numa PN sem guarda, e acompanha a linha separados
apenas por um muro durante algumas dezenas de metros. Depois, a estrada curva
para a esquerda e atravessa o rio numa ponte em pedra, enquanto a linha curva
para a direita rumo ao Cachão.
Vilarinho, a pouca distância da aldeia que serve, e muito procurada por passageiros.
Mais uma montanha
nos surge, na margem direita, esta com um aspecto a que no Nordeste se chama
vulgarmente de Muradal, já que toda a crista é formada por um alto muro natural
de rochas. A próxima paragem está situada numa aldeia que alberga um importante
complexo industrial ligado ao abate de animais e transformação de carnes;
estamos no Cachão. A linha segue o complexo ao lado de altas paredes até ficarem
ao mesmo nível mais à frente. Antes de atingir a estação e a única PN com casa
para o guarda em todo o percurso até Mirandela, a linha atravessa a pequena
ponte metálica sobre a Ribeira da Carvalha. Pouco depois surge uma agulha, e uma
estrada atravessa não uma mas duas vias. Estamos no quilómetro 41,8; a vista que
se nos depara ao olhar para trás, é o edifício do guarda da PN encaixado entre o
grande complexo e um monte caracteristicamente rochoso desta zona, que se ergue
para lá do rio. A estação essa tem uma traça única na linha, com uma divisão
ligada ao edifício principal por onde se entra por uma grande porta com ombreira
em arco, onde geralmente se colocam os horários da linha para consulta. Uma
grande palmeira, qual miragem, ergue-se junto ao edifício, onde aos seus pés já
floresceu em tempos um bonito jardim. Nota-se ainda na linha principal os
efeitos das obras de manutenção, contrastando a sua brita nova e cinzenta com a
da linha ao lado, já escurecida pelo uso e pelo tempo.
Cachão, um marco do distrito de Bragança.
A partir daqui, e
até ao apeadeiro de Latadas, última paragem antes de Mirandela, a linha é
acompanhada paralelamente pela N213, uma das mais importantes estradas em
Trás-os-Montes, que liga Chaves, Valpaços, Mirandela e Vila Flor. Esta companhia
é visível a partir do pontão que se situa a alguns metros a montante da estação.
Começa também um dos troços mais rectilíneos da linha, num terreno cada vez
menos acidentado, e onde se poderia praticar velocidades bastante superiores aos
limitadores 45Km/h praticados. Automóveis e automotora vão-se cruzando, naquela
que é a imagem de um progresso onde estradas não substituem vias-férreas, antes
se complementam. De repente surge as ruínas de uma fábrica, e por detrás desta o
povoado de Frechas. Ao lado deste edifício, a linha volta a dividir-se; estamos
na estação de Frechas. Nesta paragem, passado e presente confundem-se numa
comparação curiosa: a via ainda segue um padrão ancestral, ou seja assente em
terra e não em brita. No entanto, para aquela que é a única guarda de PN entre o
Tua e Mirandela, foi disponibilizada recentemente uma casa – contentor, a
substituir o antigo barracão, ambos com o propósito de aí se poder abrigar
enquanto espera pela passagem dos comboios. Quando tal acontece, é seu dever
accionar as cancelas manuais, e dar ordem de passagem ao maquinista com a
tradicional bandeira enrolada.
Em Frechas, a EN 213 cruza a linha com o mesmo código numérico.
Já falta pouco para
Mirandela. Pelo caminho só o apeadeiro de Latadas poderá atrasar por algum tempo
a chegada. A linha deixa Frechas atravessando a N213 primeiro na PN com guarda
manual, e depois de um quilómetro por baixo desta, no túnel de Frechas, último
antes da estação mirandelense. Desde que atinge a fábrica em ruínas até à saída
deste túnel, passamos as únicas centenas de metros em que não se vê o rio Tua
desde que saímos da estação do Tua. Então, uma larga curva reaproxima-nos,
enquanto a estrada se afasta por algum tempo do campo visual. Estamos numa zona
abundantemente agrícola, onde a linha atravessa inclusive uma quinta com uma
ponte recente sobre o Tua. Próximo desta, ao lado de um casario, e comprimido
pela estrada, o que resta do apeadeiro de Latadas, demolido em 1995, e invadido
pela N213, cuja berma se precipita sobre o minúsculo cais desta desafortunada e
desusada paragem. Ironicamente, e como que indignada por esta agressão, a linha
afasta-se da estrada, para só a voltar a atravessar em Mirandela. Uma paisagem
onde abunda o arvoredo substitui a visão da estrada, enquanto a automotora faz
um último esforço para atingir o términos actual do serviço regional da Linha do
Tua.
Latadas: em tempos um apeadeiro de traça única, hoje uma plataforma sem nome invadida pela EN 213.
E eis que ao longe
se começa a avistar
Mirandela. Passamos por vários terrenos de oliveiras, e a
entrada na urbe faz-se ao lado da barragem do Tua, na única PN automática do
troço. A cidade dá as boas-vindas aos passageiros de uma forma deslumbrante:
entre a linha e o rio, um extenso tapete verde onde pontuam várias árvores
contrastam com a cor do rio, que alarga consideravelmente. Do seu leito, um alto
repuxo dá uma nota de rara beleza, e a ponte românica, de 20 arcos todos
desiguais, mais a nova Ponte Europa, ligam as duas partes da cidade. Nesta
albufeira realizam-se todos os anos provas pontuáveis para os campeonatos
europeu e nacional de jetski, onde Mirandela ganhou estatuto de referência no
panorama internacional deste desporto. Uma última curva, e surge o passeio
ribeirinho, e a PN manual que dá acesso à grandiosa estação de Mirandela. A
automotora desliza rente ao cais principal da estação, e pára finalmente a
marcha; acabou-se a viagem.
A grandiosa estação de Mirandela, num dos últimos Verões como edifício ferroviário.
Esta descrição foi retirada do projecto não editado para o livro Esta Linha que é Nossa, para os 100 anos da chegada do caminho-de-ferro a Bragança, da autoria de Daniel Conde.
A Venturosa: de Mirandela a Carvalhais
Desde
2006 que as circulações que partem e chegam ao Tua passaram a ter um ponto
diferente da estação centenária de Mirandela. Em vez de aqui se acabar ou
começar a marcha, os comboios na Linha do Tua finalmente incluem uma viagem
integral por todos os 58Km ainda explorados, passando assim a contemplar a
estação de Carvalhais, e o troço reaberto pelo Metro de Mirandela em 1995. Uma
vez encerrada a estação de Mirandela, que passará para Albergue de Juventude, os
comboios passam a ter como principal paragem nesta cidade a estação
rodo-ferroviária de Mirandela-Piaget. Aqui, foi definido uma orientação para os
comboios ascendentes e descendentes, com sinalização própria. A partir daqui,
seguem-se as paragens, novas e antigas, dos 4Km melhor restaurados da Ferrovia
Portuguesa.
Mais uma partida para Carvalhais - Mirandela-Piaget.

Antes do Túnel de Mirandela, e a escassos metros de Mirandela-Piaget, surge a pequena paragem de Tarana, nome dado em homenagem a uma personagem popular da terra. Passado o túnel, segue-se logo um viaduto em betão, e a emblemática estação de Jacques Delors, onde o Primeiro Ministro em 1995 descerrou a placa inauguradora do Metro de Mirandela. Logo depois, e porque se trata de um troço urbano, a paragem de São Sebastião aparece, encostada ao Estádio Municipal, para o qual serve aliás de porta de entrada dos espectadores. Esta paragem é, a par de Carvalhais, a única original do troço Mirandela - Bragança de 1905/1906.
Aguardando na tarde, a estação de Jacques Delors.
O
traçado aqui é de grande beleza, quando se toma uma longa recta, ladeada por
jardins bem cuidados de oliveiras e buchos. Aqui, a oportunidade de passar pela
segunda PN com direito a casa do guarda, desde a estação do Tua (a primeira é à
entrada da estação do Cachão). Finda a longa recta, mais uma estação recente:
Jean Monet, a partir da qual se junta a EN15, companheira esporádica do troço
até Bragança. Em curvas sucessivas, linha e estrada separadas apenas por um
muro, até que se atinge a estação de Carvalhais e as oficinas da EMEF, onde os
comboios são obrigados a parar definitivamente a marcha. Depois da pequena PN
junto à estação, começa o longo reino de silêncio e dor do traçado amputado até
à capital do distrito.
Carvalhais, marco histórico na reconquista de uma via encerrada, e guarda do imenso silêncio que reina até Bragança.